Olá, eu sou o Cristyan, fisioterapeuta da Wolf Fisioterapia, localizada no Brooklin, zona sul de São Paulo, e especializado em Fisioterapia Esportiva.
Há quatro anos mergulhei no universo do CrossFit, não apenas como profissional, mas também como praticante. Essa vivência me permitiu desenvolver uma abordagem única na clínica: entender a rotina real dos atletas para desenvolver um tratamento realmente eficaz.
E isso não se aplica somente ao CrossFit, mas a todas as modalidades.
Nesta matéria, vamos nos aprofundar em um desafio comum entre os crossfiteiros: a dor no ombro e entender por que isso acontece.
Vem comigo!
Como o CrossFit afeta o ombro?
O CrossFit é uma modalidade de treinamento funcional criada pelo americano Greg Glassman, tornando-se uma marca registrada no ano 2000.
Ele combina diversos movimentos funcionais, incorporando influências do levantamento de peso olímpico, da calistenia, do treinamento de ginástica olímpica e do powerlifting, entre outras modalidades.

No contexto da fisioterapia esportiva, quando se trata do ombro, o CrossFit pode ser analisado sob dois movimentos principais: os movimentos de puxar e de empurrar. Como esses exercícios exigem muito do corpo como um todo, consequentemente, também impõem grande demanda sobre os ombros.


Alguns estudos indicam que, a cada 1000 horas de treinamento, aproximadamente 30% dos praticantes desenvolvem dor no ombro, 27% apresentam dor lombar e cerca de 18% relatam dores no joelho.

Dentre os exercícios mais exigentes para o ombro no CrossFit, destacam-se:
- Ring muscle-up (subida na argola);
- Bar muscle-up (subida na barra);
- Snatch (movimento que costuma ser difícil para quem já tem dor no ombro);
- Handstand walk (flexão de ponta cabeça na parede);
- Rope climb (escalada na corda).

Esses são, em geral, os movimentos que mais trazem desconforto e dor no ombro na prática do CrossFit.
Por que meu ombro dói no Crossfit?
Porque além de exigirem uma grande amplitude de movimento – muitos desses exercícios colocam o ombro em posição completamente estendida acima da cabeça – eles também são feitos com uma carga significativa.
Por exemplo, em um handstand walk, o peso corporal inteiro do atleta (70, 80 ou até 90 kg) é sustentado pelos ombros. Da mesma forma, em movimentos como o bar muscle-up ou ring muscle-up, o corpo fica suspenso pelas mãos, transferindo todo o peso para através dos ombros, além de sofrer acelerações devido aos balanços sob a barra.
Essa combinação de amplitude, carga e dinâmica de movimento explica por que essas atividades são tão desafiadoras e, muitas vezes, associadas a lesões.

Como inicia o tratamento da dor no ombro na Fisioterapia Esportiva
Um paciente chega na clínica dizendo que está com dor no ombro. Quais são os primeiros passos a tomar?
Nosso primeiro passo, e um dos mais importantes no tratamento da Wolf, começa com o planejamento terapêutico, e é isso que fazemos logo na primeira vez que o paciente vem até a clínica.
Iniciamos esta matéria contextualizando toda a prática do CrossFit – e a dor no ombro dentro dessa modalidade – para mostrar o quanto buscamos nos aproximar da realidade esportiva: desde o momento de entender e avaliar o paciente e a sua dor, até – e principalmente – a hora em que ele conclui o tratamento e retorna definitivamente ao seu esporte.


Quando um paciente chega à clínica com dor no ombro, essa dor pode estar associada tanto ao levantamento de peso olímpico (LPO), que é o arranque, quanto pode ser uma dor associada à musculação, a movimentos como o supino, o desenvolvimento ou o desenvolvimento Arnold.
É uma dor que também pode se manifestar em outras situações: pacientes costumam relatar desconforto ao se vestir, ao levantar o braço, ao coçar a cabeça e, principalmente, ao dormir. Ele está se sentindo bastante desconfortável, a ponto de não conseguir mais conviver com essa dor.

Esse é o momento em que o paciente chega com uma dor aguda, que não necessariamente é causada por um trauma. Na maioria das vezes, a dor surge devido a movimentos repetitivos.
Outra situação muito comum é quando o paciente tenta aumentar a carga de treino:

Também é bastante frequente o relato de dor no ombro após a participação em campeonatos de CrossFit, quando o nível de exigência do corpo é elevado de forma muito intensa.
Normalmente esse paciente chega na clínica depois de ir ao ortopedista que, depois da avaliação, pediu uma ressonância magnética.
É muito comum recebermos pacientes com a ressonância em mãos, e os principais apontamentos do exame são:
– tendinopatia do supra espinhal;
– tendinopatia do infraespinhal;
– inflamação da bursa subdeltoidea ou subacromial.
Todas essas condições juntas formam a Síndrome do Impacto ou Síndrome de colisão do ombro. São citadas no CID M75.4, que faz parte da Classificação Internacional de Doenças e está dentro de um grupo de doenças dos ombros, mais especificamente à lesões nos tecidos moles do ombro, como músculos, tendões e ligamentos.
O que isso significa Síndrome do Impacto ou Sindrome de colisão do ombro na prática?
O espaço subacromial é uma região muito delicada do ombro. É uma proeminência óssea localizada logo abaixo do acrômio e que funciona como uma espécie de “tampa” dessa articulação. Abaixo do acrômio encontra-se o osso do braço, o úmero.
Dentro dessa cavidade, estão presentes dois tendões importantes: o tendão do supraespinhal e o tendão do infraespinhal.
Além disso, há também uma estrutura chamada bursa, uma bolsa fina de líquido que atua como amortecedor, conhecida como bursa subdeltoidea ou subacromial.

A inflamação dessas três estruturas (o tendão do supraespinhal, o tendão do infraespinhal e a bursa) ocorre devido ao atrito entre os dois ossos: o úmero e o acrômio. Esse “mastigamento” acontece quando esses ossos se encontram, comprimindo as estruturas que ficam entre eles.

Na ortopedia, o tratamento tradicional consiste em controlar a inflamação e evitar movimentos com o braço acima da cabeça. Essa costuma ser a primeira orientação dada aos pacientes quando eles procuram um pronto-socorro ortopédico.

Portanto, o processo não pode se resumir ao tratamento do quadro inflamatório, especialmente quando a pessoa deseja retornar ao box (academia de treino).
Muitos dos pacientes que chegam à nossa clínica não querem interromper os treinos.
Nesse caso, o que fazemos, dentro da nossa prática de Fisioterapia Esportiva, é uma avaliação detalhada do movimento dentro do esporte que o paciente pratica que, neste caso, é o CrossFit.
Primeiro precisamos identificar a causa da dor no ombro no CrossFit
No CrossFit, ou no LPO mais especificamente, podemos analisar tanto o levantamento quanto o arranque.
Em uma dessas avaliações, observamos um paciente durante o snatch e percebemos que ele apresentava um padrão de movimento fora do normal, com uma exigência excessiva sobre os ombros.

Durante a puxada, ao levantar a barra do chão até a altura do peito, ele fechava os ombros. Como consequência, no momento de empurrar a barra para cima dos ombros, eles estavam protraídos e a sua postura estava retificada, o que compromete a execução e aumenta o risco de lesões.


Partimos do princípio de que, se posicionamos as escápulas em direção ao chão, conseguimos realizar movimentos abaixo da linha do ombro. No entanto, ao posicionar as escápulas mais elevadas (acima da linha dos ombros) ganhamos maior mobilidade para executar movimentos com o braço acima da cabeça.

No caso específico do paciente avaliado, foi observada uma protrusão acentuada dos ombros. Durante a transição entre puxar a barra e empurrá-la para cima, ele ainda mantinha as escápulas e a postura orientadas para baixo, ou seja, empurrando os ombros em direção ao chão.
Essa incoerência no posicionamento gerava um desalinhamento no movimento, resultando em sobrecarga e estresse sobre a articulação do ombro. Como consequência, o paciente desenvolveu a síndrome do impacto.
Resumindo: o paciente sofreu uma lesão no ombro porque realizava o movimento de forma desequilibrada. E vale lembrar que não se trata apenas de um movimento do ombro. O que aconteceu foi que, ao executar esse movimento sem a postura adequada, ele acabou sobrecarregando a articulação do ombro.
E como nós identificamos que a postura não estava correta?
Na Fisioterapia Esportiva, quando realizamos uma avaliação do movimento, o objetivo é compreender como o corpo inteiro está organizado para executar determinada ação. Como, por exemplo, levantar uma barra do chão.
Durante essa análise, observamos o posicionamento das escápulas. Se as escápulas estão orientadas para baixo, significa que elas ainda estão posicionadas para fazer o trabalho de puxada.
No entanto, se o movimento exige empurrar as mãos acima da cabeça, é fundamental que as escápulas estejam posicionadas para cima, acompanhando e facilitando a elevação dos braços.

É isso que ocorre no chamado ritmo escápulo-umeral. Até os 90° de elevação do braço, as escápulas permanecem apontadas para a lateral do corpo. A partir desse ponto, elas iniciam um ajuste, contribuindo ativamente para a continuação do movimento.
Agora as escápulas possuem cerca de 45° de mobilidade disponíveis, ou seja, a cada 2° de elevação do braço do nível dos ombros até acima da cabeça, corresponde a aproximadamente 1° de movimento da escápula.
Se esse ajuste escápulo-umeral não estiver acontecendo corretamente no momento da recepção da barra acima da cabeça, é muito provável que esteja provocando um estresse excessivo na articulação do ombro.
Neste caso foi observado somente o ritmo escápulo-umeral?
Não. Além da análise do ritmo escápulo-umeral, avaliamos o posicionamento completo do paciente em relação ao peso da barra, a fim de identificar outras alterações posturais importantes. Por exemplo, se ele pesa 75 kg e quer levantar 70 kg do chão, não é apenas dobrando os cotovelos que ele vai conseguir executar o movimento corretamente.
É essencial utilizar a força de impulso das pernas. Essa força precisa ser transmitida de forma eficiente através do quadril, do core, passando pelo tórax até a cintura escapular. Só assim é possível gerar a potência necessária para retirar o peso do chão, impulsioná-lo e empurrá-lo com controle até acima da cabeça.

Esse é um movimento extremamente rápido e linear, que exige coordenação, força e alinhamento postural em toda a cadeia corporal.
Quando conseguimos ajustar toda essa sequência de eventos, como o movimento das pernas, do tronco e dos ombros, alcança-se um nível de eficiência muito maior.
Com uma boa qualidade no movimento, um bom alinhamento entre os segmentos do corpo, ou seja, uma postura adequada durante toda a execução, alinhados a uma boa velocidade tanto na saída quanto na recepção do movimento, torna-se possível receber a barra acima da cabeça com mais facilidade e controle.

Tudo o que afasta o paciente dessa linha de organização compromete a sua postura durante o levantamento. Por isso, é fundamental investigar o que está causando esse desvio, tanto na fase de puxar quanto na fase de empurrar, especialmente no momento da recepção da barra acima da cabeça.
Como proteger o ombro no Crossfit?
A resposta é: entender essas falhas no alinhamento permite corrigir o movimento, reduzir o risco de lesões e melhorar a eficiência na prática do esporte.
Ou seja, durante a avaliação, não se analisa apenas a lesão no ombro. Claro, é importante identificar o que está machucado, mas também é essencial entender por que aquela estrutura está sendo sobrecarregada, porque ela está sendo “mastigada”.
Na nossa avaliação, observamos como o paciente está utilizando todo o ombro no movimento, identificando padrões incorretos ao levantar o braço. Além disso, se a postura não estiver adequada, ele não conseguirá elevar os braços com carga acima da cabeça de forma eficiente e segura, usando todo o seu corpo para que ele fique reto.
Como é o tratamento na Wolf Fisioterapia para a dor no ombro no CrossFit
Nesta matéria vamos resumir as 3 fases do tratamento para que tenha uma ideia do que acontece em cada etapa.
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O tratamento se divide em 3 etapas:
1ª etapa – Fase aguda – Tratamento da dor e inflamação
É comum que o paciente chegue à clínica em estado de desespero, buscando alívio imediato da dor no ombro. Para quem está passando por isso, a nossa primeira palavra é: calma.
O tratamento da fase aguda começa, prioritariamente, com o controle da inflamação. É um pouco similar ao que costuma ser feito em um pronto-socorro ortopédico, sendo que os medicamentos para conter a inflamação na fisioterapia esportiva são: laser, ultrassom, TENS (Estimulação Elétrica Nervosa Transcutânea) e o mais utilizado pela fisioterapia esportiva é a liberação miofascial.
De forma geral o tratamento costuma acontecer entre 1 e 3 semanas.
2ª etapa – Fase subaguda – Retorno às atividades do dia a dia
Uma vez que a fase aguda está controlada, o próximo passo é retomar as atividades do dia a dia. Isso inclui ações simples, mas essenciais, como pentear o cabelo, lavar a cabeça, guardar um prato ou copo na prateleira de cima.
Nessa fase o paciente começa a voltar aos treinos de uma forma orientada, pois o ombro esta em recuperação, as exigências do Crossfit são grandes e temos que tomar muito cuidado para não machucá-lo novamente.

3ª etapa – Fase de retorno ao esporte
E então chegamos à terceira fase do processo, que é a fase de retorno ao esporte, a principal e mais importante. É nesse momento que vamos entender, de forma mais profunda, o que levou o paciente a desenvolver a dor aguda no ombro.
É nessa etapa que investigamos o porquê da postura de ombros fechados e coluna dobrada e como ela está influenciando no movimento dos ombros, ou seja, tratamos a causa do problema.
Essa é a fase em que iniciamos o trabalho de reeducação postural do paciente, com o objetivo de melhorar o alinhamento do seu tronco.
Mas quando se trata de voltar ao esporte que ele ama, como o CrossFit, que exige muito mais do corpo, é preciso que alguém mostre a ele o “caminho das pedras”, fazendo uma progressão segura e estruturada.
Na prática esportiva, os movimentos se tornam ainda mais lesivos quando essas compensações começam a fazer parte do treino.
E então vem o clássico: “vou levantar só o peso da barra, só 10 ou 20 kg”. Mas isso já é mais do que suficiente para piorar (e muito) uma compensação postural que nasceu como uma memória de dor.
Além disso, durante o processo de retorno ao esporte, é comum o paciente sentir insegurança em relação aos sinais que o corpo dá.
O processo de alternar entre a prática esportiva e as sessões de fisioterapia permite fazer os ajustes necessários. A cada retorno, é possível avaliar os sintomas, identificar se a dor é esperada ou não, e fazer as orientações necessárias.

Resumindo, acompanhar de perto o processo de retorno ao esporte é fundamental, especialmente porque esse primeiro contato na volta à academia costuma gerar muito medo.
Conclusão
O processo de reabilitação da dor no ombro no CrossFit pode ir muito além do próprio ombro. Questões como postura, respiração e a forma como o corpo lida com o esforço e a fadiga podem ter uma relação direta com o surgimento da lesão.
Por isso, na Wolf Fisioterapia, o foco não é apenas tratar o sintoma, mas entender e resolver a causa de forma definitiva.
Nossa proposta é reeducar o paciente, para que ele volte ao esporte com confiança e sem medo. Acreditamos que a verdadeira alta acontece quando o paciente não sente mais dor e, acima de tudo, não precisa mais voltar para resolver o mesmo problema.
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