4 lesões mais comuns na corrida de rua e entenda porque elas acontecem

Sumário

A corrida de rua é um dos esportes mais antigos de que temos notícia, com seus primeiros registros remontando à Grécia Antiga.

É uma prática que vem se tornando cada vez mais relevante: no ano de 2025, a Corrida de São Silvestre bateu o recorde de inscritos, com cerca de 55.000 participantes. No calendário de 2026 estão previstas 160 provas de corrida de rua somente na cidade de São Paulo.

Com tantas pessoas aderindo ao esporte, não podemos deixar de abordá-lo sob a ótica da Fisioterapia Esportiva.

Neste artigo, vamos falar sobre as lesões mais comuns na corrida de rua e as razões pelas quais elas se desenvolvem

Vamos abordar também um tema que gera muitas dúvidas: qual é o momento ideal para buscar a ajuda de um fisioterapeuta?

Leia até o final para descobrir.

Por que as lesões acontecem e como evitar?

Os principais fatores biomecânicos que predispõem às lesões na corrida de rua são todos aqueles elementos físicos e mecânicos que têm influência sobre os movimentos do nosso corpo. Envolvem a interação entre forças externas, como carga e gravidade, e estruturas internas do corpo humano, como músculos, ossos e articulações.
Podemos citar como exemplo a capacidade dos músculos de gerar movimentos rápidos em um salto, a resistência dos ossos diante da gravidade, mantendo o corpo humano em pé, e, além disso, o movimento articular que, através de alavancas, proporciona os deslocamentos.

Quais os sinais de que estou correndo errado?

Na Fisioterapia Esportiva, a avaliação dos fatores biomecânicos é o ponto central tanto para a prevenção quanto para a recuperação de lesões.

Em se tratando de corrida de rua, temos quatro principais fatores biomecânicos que predispõem às lesões, que são:

1) baixa cadência – quando o número de passos por minuto (PPM) é reduzido, com passadas longas, maior tempo de contato dos pés com o chão e um aumento do impacto sobre as estruturas do corpo;

2) impacto dos pés no chão – quando as passadas são muito marcadas, com os pés batendo forte no solo;

3) rebolar durante a corrida – conhecido tecnicamente como “drop da pelve”, ocorre quando a bacia cai para o lado oposto ao da perna que está apoiada no chão, dando a sensação de que a pessoa está rebolando;

4) lesões prévias – alguém que já teve uma lesão prévia, relacionada ou não à corrida, têm uma chance maior de desenvolver queixas relacionadas a esta prática.

Mesmo para quem é leigo, é fácil observar alguns destes fatores em locais onde há pessoas correndo. Quando a corrida é pesada, com passadas muito marcadas, podemos ouví-las de longe. Quando existe esse movimento de rebolar, ou queda da pelve, temos a sensação de que a pessoa vai cair ou que ela está correndo de forma muito desengonçada.

Entender por que as lesões acontecem é o primeiro passo para conseguir evitá-las.

Por que observar os fatores biomecânicos é tão importante na prática da corrida?

Considere que 60% do nosso peso corporal está acima da linha da cintura. Uma pessoa que pesa 100 kg, por exemplo, tem 60 kg acima desta linha. Quando ela faz o movimento básico da corrida, que é ficar sobre uma perna só, precisa equilibrar sobre ela esses 60 kg, somados ao peso da perna que está no ar.

Acrescente a isso o fato de que, ao perdermos o contato com o solo e retornarmos a ele, a carga sobre as articulações aumenta pelo menos 50% em relação ao nosso peso em repouso. Na corrida, todo esse impacto vai se dar sobre as articulações de uma perna só.

Em um cenário ideal, essa movimentação deve ocorrer mantendo-se um bom alinhamento corporal.

Quando esse alinhamento não é tão bom, podem ocorrer falhas em vários locais ao longo do movimento, como pés, joelhos, quadril e até lombar. Por isso a postura e a técnica são pontos cruciais para prevenir lesões na corrida de rua.

Continue lendo e descubra quais são as principais lesões que afetam os corredores de rua.

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Quais são as lesões mais comuns na corrida de rua e como elas surgem

Até aqui você entendeu a relação entre o corpo e o impacto que ele recebe durante a corrida de rua. Agora, vamos descrever algumas doenças que são muito comuns em seus praticantes e como elas são desencadeadas.

Joelho – Tendinite patelar

A tendinite patelar, ou joelho do saltador, é uma inflamação no tendão que conecta a patela à tíbia, originando relatos de pacientes como dor na frente do joelho, ou dor medial do joelho, logo abaixo da rótula (patela), e uma consequente dificuldade para subir ou descer escadas e agachar.

Como a tendinite patelar se desenvolve na corrida

A melhor forma de romper uma corda é aplicando uma tração abrupta sobre ela. Se for aplicada uma tração organizada, com um tempo de dilatação, é possível aplicar a tensão sem que ela necessariamente se rompa.

O mesmo vale para o tendão: se ele receber, repetidamente, a aplicação de força abrupta em um curto espaço de tempo, está formado o cenário ideal para a tendinite acontecer.

Em alguém que tem uma passada muito forte ao correr, que faz barulho – e, além de tudo, agacha quando chega ao chão, travando o movimento do joelho – o tendão patelar, que passa bem na frente desta articulação, é tracionado repetidas vezes, favorecendo o surgimento da tendinite patelar.

Pé – Fascite plantar

A fascite plantar é a inflamação da fáscia plantar, uma faixa espessa de tecido conjuntivo que liga o calcanhar aos dedos e sustenta o arco do pé, causando sintomas como dor aguda e pontada no calcanhar, principalmente ao acordar, nos primeiros passos do dia.

Como a fascite plantar se desenvolve na corrida

O surgimento da fascite plantar segue a mesma lógica da tendinite patelar.

O corredor que faz a pronação do arco medial da planta do pé no chão de uma forma abrupta está provocando, de forma repetida, um estiramento da fáscia plantar, causando a tendinite. Quem olhar este corredor de costas vai conseguir notar o solado do lado interno do tênis amassando muito mais do que o restante do pé.

Qual a diferença entre a fascite plantar e o esporão?

Podemos dizer que o esporão é uma consequência da fascite plantar. Após um longo período de estiramento da fáscia (tração crônica), o osso do calcanhar, que está diretamente ligado à ela, cria uma protuberância, conhecida popularmente como esporão.

Por isso a cirurgia, de forma isolada, não é solução para o esporão. É necessário corrigir o movimento para diminuir o impacto na fáscia, cessando a inflamação.

Joelho – Condromalácia patelar

A condromalácia patelar é o desgaste da cartilagem na parte de trás da patela (rótula), causando sintomas como dor na região frontal do joelho, dor medial do joelho, principalmente ao agachar, subir ou descer escadas e correr.

Como a condromalácia patelar se desenvolve na corrida

A patela é um osso triangular, localizado na parte frontal do joelho, que se encaixa na tróclea femoral, uma espécie de sulco do fêmur. A tróclea funciona como um trilho onde a patela desliza nos movimentos de flexão e extensão do joelho.

Na condromalácia patelar temos duas situações:

1) uma pressão exagerada da patela sobre esse trilho, causada pelas passadas muito pesadas e pelo movimento de agachar e flexionar o joelho quando o corredor coloca o pé no chão;

2) um deslizamento irregular da patela através desse trilho, causado por algum desvio do joelho para dentro ou para fora (valgo e varo).

Ambas as situações, juntas, provocam um desgaste irregular e prematuro dessas estruturas, resultando na condromalácia.

É como o pneu de um carro cuja superfície está rodando de forma irregular, desgastando muito mais um lado do que o outro.

Quadril e Joelho – Síndrome da banda iliotibial

A síndrome da banda iliotibial é a inflamação da banda iliotibial, uma espécie de faixa de tecido conjuntivo localizada na lateral da coxa, que se estende desde o quadril até o joelho, provocando sintomas como dor em pontadas ou a sensação de queimação na lateral do joelho.

Como a síndrome da banda iliotibial se desenvolve na corrida

A síndrome da banda iliotibial está mais relacionada aos movimentos laterais da bacia e dos joelhos. Como a queda da pelve, por exemplo, que é o movimento de rebolar durante a corrida.

Quando ocorre a queda do quadril no lado oposto ao da perna que está apoiada no chão, cria-se um ângulo entre esses dois pontos. Em um dos lados dessa angulação, o da perna apoiada no chão, encontra-se a banda iliotibial. Essa estrutura sofre um estiramento abrupto, causando a síndrome da banda iliotibial.

Leia também: Dor no quadril na Corrida e no Crossfit: principais erros e como prevenir

Muitas pessoas procuram o fisioterapeuta somente quando sentem dor. Será que esta é a melhor decisão? Veja a seguir.

Quando procurar ajuda de um fisioterapeuta esportivo? Entenda a relação dor x lesão

Será que todas as pessoas que têm alterações biomecânicas na corrida vão sentir dor? Não necessariamente. Algumas revisões na literatura afirmam que a dor pode ou não estar presente nesses casos.

Este é um assunto bastante controverso, considerando que:

a) o fato de sentir dor não significa que o atleta tem uma postura ou técnica erradas. Ele pode estar errando na alimentação ou no volume de treino. Por isso, a presença da dor não significa, obrigatoriamente, que existe uma lesão tecidual;

b) o contrário também é verdadeiro. Uma pessoa pode estar correndo de forma totalmente errada, se predispondo a desenvolver uma lesão, e não sentir dor. A dor tende a ser mais presente em pessoas que apresentam maior sensibilidade, em pessoas que não têm um equilíbrio entre gasto e recuperação ou naquelas que já têm lesão prévia.

Pense em uma pessoa que vive tropeçando quando corre. Ela ainda não se machucou, mas a probabilidade de isso vir a acontecer é grande. Por isso a prevenção é tão importante, investigando o que está errado no movimento que a leva a tropeçar constantemente.

O fisioterapeuta deve ser procurado somente quando existe suspeita de lesão?

Em nossa prática clínica diária, observamos que a grande maioria dos pacientes busca atendimento apenas quando a dor já está presente. No entanto, existe um equívoco comum ao acreditar que o papel da Fisioterapia Esportiva se limita ao tratamento de sintomas das lesões.

Contar com a ajuda de um fisioterapeuta esportivo pode fazer a diferença em diversos momentos, como:

– um atleta que busca o desafio das maratonas e ultramaratonas deve considerar avaliar a biomecânica da sua corrida. Ele pode ter algumas dificuldades, como manter o equilíbrio entre a passada e a respiração, que impedem a sua evolução. Através da Fisioterapia Esportiva é possível ajustar esses detalhes, garantindo uma prática mais equilibrada e com menos riscos de lesões;

– nem toda dor na corrida é causada por uma técnica incorreta. Muitas vezes, o erro está no volume excessivo de treino. O desejo de saltar dos 5 km para os 10 km, querendo logo correr uma maratona, gera uma sobrecarga que o corpo ainda não está preparado para suportar. A Fisioterapia Esportiva atua identificando esses erros e colaborando com o atleta sobre como progredir sem comprometer a saúde das articulações;

– em muitos casos, a dor é o sinal de uma falha biomecânica real que predispõe o corredor a lesões mais sérias. Seja um desconforto sentido durante a prática ou após o treino, o desejo de correr sem limitações é o motivo para buscar ajuda. O fisioterapeuta esportivo vai investigar, diagnosticando a causa raiz do problema e promovendo os ajustes necessários para interromper o ciclo da dor e evitar o agravamento do quadro;

– e, obviamente, temos as pessoas que já estão lesionadas, sentindo muita dor e até impossibilitadas de correr. A Fisioterapia Esportiva vai tratar a fase aguda, identificar a causa da lesão, promover a reestruturação do movimento e devolvê-las ao esporte.

O papel da Fisioterapia Esportiva vai além do tratamento de sintomas. Ela exerce um papel funcional e, através da biomecânica, avalia, reeduca, estrutura os movimentos, reduz o risco de lesões e melhora a sua performance.

Conclusão

Existem dois fatores principais que predispõem às lesões na corrida de rua, que são a passada muito marcada, batendo o pé com força no chão, e o movimento de queda do quadril, quando temos a sensação de que o corredor está rebolando.

A Fisioterapia Esportiva oferece uma contribuição significativa para melhorar a biomecânica da corrida, prevenindo lesões, ajudando quem já se lesionou a voltar a correr com menores chances de reincidência, além de melhorar a performance e a evolução dos atletas.

Para melhores resultados, é importante observar a forma como está correndo, ficar atento aos sinais que o seu corpo dá e não buscar ajuda profissional somente quando estiver sentindo dor ou quando a lesão já estiver instalada.

Você sente algum desconforto durante ou após a corrida ou deseja melhorar sua performance? Agende uma avaliação com nossa equipe especializada.

Cristyan Shimamoto é Fisioterapeuta graduado pela Universidade de São Paulo (USP) e especializado em Esporte e Exercício pelo HCFMUSP. CREFITO-3: 293897-F.

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