Se você vem sentindo dor ou desconforto na lateral do tornozelo após uma corrida, uma partida de tênis ou um treino de CrossFit, pode estar lidando com a tendinite fibular.
Também conhecida como tendinite no tornozelo, a tendinite fibular é uma lesão que afeta os tendões responsáveis pela estabilidade e movimentação lateral do pé. Mais do que um incômodo, ela é um sinal de que a “engrenagem” do seu corpo, desde a pisada até o quadril, pode estar desalinhada.
Neste artigo, vamos ajudar você a entender o que é a tendinite fibular, porque ela acontece, identificar quais são os sintomas e qual a melhor forma de tratá-la.
O que é a tendinite fibular ou tendinite do tornozelo? Quais são os sintomas?
Para ajudar você a entender o que é a tendinite fibular, vamos iniciar com o relato de um paciente que procurou nossa clínica recentemente. Iremos chamá-lo de Pedro.
Pedro é um jogador de tênis experiente que, há algum tempo, vinha convivendo com uma dor incômoda na lateral externa do tornozelo. Não era algo constante: a dor cedia após alguns dias de repouso, mas reaparecia quando ele jogava vários dias seguidos.
Para seguir jogando, Pedro criou seu próprio método: pausava os treinos quando o desconforto surgia e recorria a analgésicos para competir. No entanto, durante um campeonato, ele sofreu uma entorse que agravou o quadro. Foi o sinal de alerta para ele procurar um médico. Os exames de imagem não apontaram nenhuma lesão e a dor cessou após o tratamento inicial, o que o motivou a retornar às quadras. Mas assim que ele voltou a jogar a dor retornou, deixando Pedro inseguro e com medo de um novo entorse.
Através deste relato, fica claro que o principal sintoma da tendinite fibular é a dor localizada na parte externa do tornozelo. Não se trata de uma dor constante: ela tende a piorar durante a prática esportiva (como no caso do Pedro, ao aumentar a frequência dos jogos) e melhora com o repouso.
Além dos sintomas físicos, entrou em campo também o fator psicológico: a insegurança ao jogar. O medo de voltar a treinar e sofrer uma nova lesão pode ser tão limitante quanto a dor em si.
Mas, afinal, o que é a tendinite fibular e como ela acontece? É o que explicaremos a seguir.
Entenda o que é a tendinite fibular
O nome tendinite fibular faz referência à fíbula, um osso localizado na lateral da perna. Atrás dela, encontram-se os músculos fibular curto e fibular longo, que desempenham funções importantes para a nossa mobilidade, como:
- o movimento de pronação do pé durante a caminhada ou a corrida;
- controlar o movimento lateral do tornozelo. Este é um movimento que, quando não é bem controlado, pode ocasionar a entorse em supinação, que é o estiramento dos músculos.
A dor da tendinite fibular surge quando ocorre uma lesão ou sobrecarga nos tendões desses músculos. Um ponto importante é que essas estruturas são naturalmente mais propensas a lesões devido à sua anatomia: elas contornam uma proeminência óssea chamada maléolo lateral. Essa localização cria um ponto de atrito que, somado a um esforço repetitivo, pode levar à inflamação.
Imagine um fio sendo passado continuamente contra a quina de uma mesa: com o tempo, o desgaste é inevitável. Somando esse atrito natural a movimentos como a corrida atrás da bola e mudanças bruscas de direção (como acontece no tênis) e a uma musculatura fraca, que não estabiliza a articulação, temos o cenário perfeito para o surgimento da tendinite.

Para uma estrutura que já está sob estresse, qualquer desequilíbrio a mais pode ser a gota d’água para a lesão aparecer. Vamos entender agora quais são as causas reais por trás desse problema e por que ele afeta tantos atletas.
O que causa a tendinite fibular, também conhecida como tendinite no tornozelo?
A tendinite fibular é uma lesão por repetição muito comum em esportes como a corrida e o tênis. Nessas modalidades, o tornozelo é constantemente submetido a freadas bruscas e deslocamentos laterais que produzem um grande estresse na região, levando ao desgaste progressivo dos tendões.
Na prática da corrida essa sobrecarga ocorre, geralmente, quando o atleta corre com os pés virados para fora. Isso faz com que os fibulares, ao realizarem o movimento de pronação do pé, sejam tensionados repetidamente contra o maléolo lateral.
No tênis a situação é ainda mais crítica, devido à exigência constante de deslocamentos laterais. A combinação das passadas muito marcadas, aceleração e freadas bruscas para alcançar a bola gera uma tensão ainda maior na região lateral do tornozelo.
Outros fatores que contribuem para a maior prevalência da tendinite fibular no tênis
- a dificuldade de equilibrar os movimentos por todo o corpo, principalmente do pé até o quadril. O mais comum é que o atleta sobrecarregue apenas o tornozelo para realizar os deslocamentos, exigindo que essa articulação absorva os impactos sozinha;
- nos deslocamentos laterais do tênis, é comum notar atletas com dificuldade tanto em gerar potência na arrancada quanto em controlar a frenagem ao chegar na bola. Em vez de uma desaceleração suave e controlada, o que se observa são pancadas secas contra o chão, sobrecarregando excessivamente a articulação do tornozelo.

Mas a tendinite fibular afeta somente os praticantes da corrida e do tênis? Definitivamente, não. Ela pode ocorrer em qualquer prática esportiva que exige deslocamentos laterais, como vôlei, basquete e futebol, bem como em modalidades com muito impacto e intensidade, como o CrossFit.
Independentemente da modalidade, a maior preocupação de quem recebe o diagnóstico é a mesma: será que vou precisar abandonar o esporte? A boa notícia é que, com a abordagem correta, é possível reverter esse quadro.
Quer saber como funciona esse processo na prática? Descubra a seguir se a tendinite fibular tem cura e quais os caminhos para o tratamento.
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A tendinite fibular tem cura? Como é o tratamento?
A tendinite fibular tem cura, mas a solução definitiva exige que a causa raiz do problema seja identificada e corrigida. Por isso, mais do que olhar apenas para o local da dor, é fundamental observarmos o paciente em movimento. Analisamos, entre outras coisas:
- como o pé interage com o chão;
- a sua postura, ou seja, como ele organiza as estruturas do seu corpo para aplicar o peso corporal no chão.
No caso do Pedro, nosso paciente tenista, o tratamento ocorreu em 3 fases distintas:
Etapa 1 – Tratamento da fase aguda e tempo de recuperação
Nesta fase, o objetivo era cessar a dor e a inflamação. Usamos técnicas como o ultra-som, o laser, o choque, a drenagem linfática e a liberação miofascial.
Em cerca de 2 semanas ele teve um alívio significativo da dor, voltando a caminhar normalmente, subir escadas e fazer outras atividades do seu cotidiano.
Etapa 2 – Fase de reestruturação
Na fase aguda, é normal que o paciente não coloque o pé inteiramente no chão para evitar a dor, provocando um enfraquecimento dos músculos da região.
Na segunda etapa, então, nosso objetivo foi promover o fortalecimento muscular do tornozelo.
Aplicamos exercícios que estimulam o contato do pé com o chão, como abrir as pontas dos pés com um elástico em volta, erguer as pontas dos pés, fazer movimentos de panturrilha e pular sem sair do lugar (movimentos de absorção pliométrica).

Etapa 3 – Tratamento da causa raíz e retorno ao esporte
Na terceira fase, Pedro já tinha voltado a jogar tênis. O objetivo, agora, era descobrir como ele tinha se lesionado. Nosso foco deixou de ser o tornozelo e passamos a observá-lo como um todo. Como ele se movimentava e aplicava o seu peso corporal no chão?
Ao vê-lo em quadra, notamos que ele se movimentava de forma muito brusca e desequilibrada, se posicionando em cima do calcanhar e com o bumbum jogado para trás. Analisando melhor, percebemos onde estava a causa desse desequilíbrio: a falta de ativação do glúteo.
Essa falha biomecânica impedia que, ao realizar a extensão do quadril, Pedro transferisse o peso do corpo para a parte frontal do pé, como seria o correto. Como consequência, ele não acionava a panturrilha de forma eficiente para auxiliar na absorção do impacto a cada passada.
Como corrigimos essa falha?
Realizamos um trabalho de ativação do glúteo para que Pedro utilizasse a panturrilha de forma mais efetiva, amortecendo o impacto e retirando a sobrecarga do tornozelo. É importante observar que não foi um trabalho isolado de glúteo, como na musculação, mas um trabalho de alinhamento, treinando esse músculo para atuar em sincronia com o restante do corpo.
Mas somente essa correção não seria suficiente. Pedro precisava entender o papel do glúteo nesse contexto. Quando ele adquiriu consciência, adotou uma postura mais correta, integrando o glúteo ao movimento e acionando a panturrilha para absorver o impacto e deixar o tornozelo livre de novas lesões.
Qual é o tempo de recuperação da tendinite fibular?
O tempo de recuperação é variável e depende de fatores como o nível de inflamação na fase aguda e a facilidade do paciente em absorver os novos padrões de movimento. Em média, o tratamento completo leva de 6 a 10 semanas. No caso do Pedro, que já tinha uma boa consciência corporal como atleta, conseguimos concluir o processo em 6 semanas.
Um dos segredos da boa recuperação é fazer os estímulos corretos durante o tratamento, a fim de acelerar o processo e evitar que a dor retorne. Confira a seguir alguns dos exercícios que utilizamos para fortalecer e proteger o tornozelo.
Quais são os exercícios mais indicados para quem tem tendinite fibular
Assim como o tempo de tratamento, os melhores exercícios para o tratamento da tendinite fibular também são variáveis.
Somente após a avaliação do fisioterapeuta esportivo e da identificação das causas da lesão, poderão ser apontados quais exercícios são mais indicados para cada paciente.
No caso do Pedro, aplicamos os seguintes exercícios na fase 3, de retorno ao esporte:
Exercício 1
Nesse exercício, o objetivo era trazer o quadril dele para trás. Orientamos o paciente a fazer o movimento de extensão de quadril e, depois, simular uma caminhada sem sair do lugar, parando em seguida sobre um pé só. Nesse momento, ele tinha que manter o equilíbrio sobre uma perna só.

Exercício 2
No segundo exercício, pedimos ao Pedro para pular sobre um step. Ao pousar sobre o step, ele deveria se posicionar sobre uma perna só, exigindo que ele se equilibrasse enquanto ainda recebia o impacto do pulo. O objetivo era treiná-lo a ativar o glúteo neste momento e, consequentemente, usar a panturrilha na absorção do impacto, aliviando a sobrecarga no tornozelo.
Exercício 3
Neste exercício repetimos os mesmos movimentos do segundo, porém aumentando o grau de complexidade. O paciente tinha que saltar sobre o step, se equilibrar sobre uma perna só e amortecer o impacto segurando 5 kg em cada mão.
Com a aplicação desses exercícios, Pedro começou a se movimentar de maneira diferente, com mais consciência e equilíbrio. Ao ser capaz de reproduzir esses movimentos em quadra, ele também ganhou autonomia. Os benefícios foram muito além da eliminação da dor: ele se tornou mais ágil, veloz e com passadas mais suaves, com menos impacto no chão.
Mas será que é preciso esperar a dor aparecer para agir? Descubra a seguir como você pode prevenir a tendinite fibular e manter seus tendões sempre saudáveis.
Como prevenir a tendinite fibular
A melhor maneira de prevenir a tendinite fibular é buscar ajuda profissional ao notar os primeiros sinais de desconforto. Adiar essa avaliação não só facilita o surgimento da lesão, como pode agravar o quadro, tornando o processo de recuperação mais longo e complexo.
Além de notar possíveis sintomas, observe-se durante a prática esportiva:
- Quando você corre, o seu pé fica virado para fora?
- Quando joga tênis, futebol ou voleibol, você percebe o seu corpo alinhado, com todas as estruturas trabalhando em harmonia para absorção do impacto? Ou sente que está colocando muito peso sobre o tornozelo?
- Suas passadas são muito marcadas?
- Você freia de maneira brusca quando chega na bola?
Se você notar um ou mais desses sinais, um Fisioterapeuta Esportivo pode ajudá-lo a desenvolver mais consciência corporal e corrigir esses movimentos, atuando na prevenção. Assim, você não apenas evita a dor e a lesão, como também ganha mais agilidade, velocidade e melhora a sua performance.
Veja a seguir a resposta para as dúvidas mais comuns sobre a tendinite fibular.
Tire suas dúvidas: as perguntas mais frequentes em relação à tendinite fibular
Muitas vezes, na tentativa de acelerar a recuperação ou proteger o tornozelo, os pacientes recorrem a soluções que nem sempre são as mais eficazes a longo prazo.
Abaixo, respondemos duas das principais dúvidas que surgem em nossos atendimentos.
Usar tornozeleira é bom para quem tem tendinite fibular?
O uso da tornozeleira não é indicado para quem sofre com tendinite fibular.
A tornozeleira não consegue sustentar, por si só, todo o peso que está acima do tornozelo, não sendo capaz de garantir a estabilidade necessária para evitar esse tipo de lesão.
Tornozeleiras mais rígidas, como a Aircast, proporcionam um maior controle da movimentação lateral do tornozelo, mas, em compensação, aumentam a tensão sobre o joelho. Ou seja, elas até serão protetivas, mas não resolverão o problema de fato.

Quando a tendinite fibular precisa de cirurgia?
Considerando que a tendinite fibular é uma lesão causada por movimentos repetitivos, a cirurgia não é o tratamento mais indicado. De que adianta operar, remover o tecido lesionado e continuar se movimentando da maneira errada? Será só uma questão de tempo até você se lesionar novamente.
Sem mencionar que, após a cirurgia, você terá que passar pelo mesmo processo de fortalecimento da região e reeducação postural e de movimento que é proposto no tratamento conservador.
Conclusão
A tendinite fibular pode ser um sinal claro de que seu corpo precisa de atenção e ajustes no movimento. Entender que a dor no tornozelo é apenas o sintoma de um desequilíbrio maior é o primeiro passo para uma recuperação definitiva.
Se você está sentindo dor na lateral do tornozelo ou percebe que seus movimentos não estão em equilíbrio, sobrecarregando suas articulações, não espere o quadro se agravar. Entre em contato com a nossa equipe para uma avaliação. Queremos ajudar você a se movimentar bem, eliminando a dor e devolvendo a confiança para praticar o esporte que ama.
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Cristyan Shimamoto é Fisioterapeuta graduado pela Universidade de São Paulo (USP) e especializado em Esporte e Exercício pelo HCFMUSP. CREFITO-3: 293897-F.
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