Na Fisioterapia Esportiva, o tratamento das lesões não é igual para todos e depende muito da modalidade esportiva ao qual o paciente se dedica. Para alcançarmos nosso objetivo com sucesso, que é recuperá-lo da lesão, deixá-lo o menor período de tempo possível sem treinar e prevenir a ocorrência de novas lesões, é fundamental compreendermos o funcionamento do seu esporte na prática.
Em se tratando de artes marciais, uma das que mais predispõem seus praticantes à lesões é o Jiu-Jitsu. Por isso, compreender a rotina e a intensidade dos treinos, além dos riscos inerentes à essa prática, é o primeiro passo para garantir a manutenção da alta performance e da longevidade no tatame, sem ser interrompido por dores ou novas lesões.
Continue lendo para saber mais sobre a prática do jiu-jitsu, qual a probabilidade de se lesionar nessa modalidade e como evitar as lesões.
O que é o Jiu-Jitsu?
O jiu-jitsu é uma prática esportiva de luta de contato. Ela tem origem no judô, que veio do Japão, e sofreu várias adaptações no Brasil, a ponto de ser chamado de Brazilian Jiu-Jitsu (BJJ) ou Jiu-Jitsu Brasileiro.
Trazido para o Brasil pela família Gracie, o jiu-jitsu ganhou notoriedade no país através do UFC, que popularizou o esporte e fez o número de academias especializadas nessa prática crescerem. A grande maioria dos praticantes são homens adultos, em uma faixa etária que varia entre os 20 e os 50 anos.
A prática do jiu-jitsu pode ser com ou sem quimono. A prática com quimono lembra bastante o judô, sendo a principal diferença o fato de não ser praticada em pé, e sim no chão. Pela sua característica de ter um combate mais corpo a corpo, o jiu-jitsu lembra muito, também, o wrestling e a luta greco-romana.
Uma aula de jiu-jitsu padrão inclui:
- aquecimento;
- técnica, onde o praticante aprende a fazer passagem de vantagem, finalização e estrangulamento;
- e o sparring livre, momento em que os praticantes treinam o combate organizados em duplas.
Uma das perguntas mais frequentes em relação ao esporte é: o jiu-jitsu causa muitas lesões?
Como uma arte marcial direcionada ao combate, seus praticantes estão muito expostos à várias lesões e, portanto, é comum se machucar durante a sua prática. Continue lendo para saber quais são essas lesões, como elas se originam e o que cada praticante sente quando se lesiona.
É normal se machucar no Jiu-Jitsu? Veja o que as estatísticas mostram
Antes de analisarmos as estatísticas, vamos estabelecer duas premissas importantes:
- as lesões no jiu-jitsu podem ser divididas entre lesões traumáticas e lesões por repetição;
- na prática do jiu-jitsu existem 5 níveis de faixa, que vão desde o iniciante até o mais avançado, que são as faixas branca, azul, roxa, marrom e preta. O tempo de passagem de uma faixa para a outra demora cerca de 2 anos, dependendo da academia. E são justamente os atletas menos experientes que estão mais sujeitos à lesões.
O motivo é simples: os atletas iniciantes são mais “estabanados”. Eles pisam no pé do colega de treino, causando uma entorse. Tropeçam em cima da própria perna e torcem o joelho. Escorregam e caem por cima do próprio ombro. Isso explica porque as lesões, principalmente as traumáticas, são mais prevalentes nesses atletas.

Logo, se você é um iniciante no jiu-jitsu, esse é um bom motivo para continuar lendo esse texto.
Nos atletas intermediários predominam as lesões por repetição, que são as lesões mais posturais, assim como as tendinites e lombalgias. Nos atletas mais experientes varia bastante, mas em geral também predominam as lesões por repetição.
Segundo artigos recentes, as principais estatísticas referentes a essas lesões são:
- 78% das lesões traumáticas acontecem no free sparring;
- 89% das lesões acontecem durante o treino;
- 10% delas acontecem em competições;
- essas lesões resultam, em média, em 33 dias de afastamento do atleta.
Esses dados mostram algo significativo: os momentos mais críticos são aqueles em que os praticantes estão livres para treinar os golpes e técnicas que quiserem. É nesses momentos que os treinos se tornam mais “acalorados”, quando o atleta menos experiente tende a ser mais “estabanado” e o atleta mais experiente passa dos limites ao aplicar seus golpes.
Outras estatísticas importantes, segundo os mesmos artigos, são:
- ocorrem 5,5 lesões a cada 1.000 horas de treinamento e 55,9 lesões a cada 1.000 lutas realizadas;
- o joelho representa 25% das lesões, seguido pelo ombro, com 13% das lesões.
De acordo com a minha experiência clínica, a fratura de costela é uma das lesões mais frequentes no jiu-jitsu, e ocorre quando um praticante faz muito peso sobre o corpo do outro e este não sabe como reagir.
A seguir, veremos quais são as lesões mais frequentes no jiu-jitsu e porque elas acontecem.
Como prevenir as lesões no Jiu-Jitsu
Se você não quer sofrer uma lesão no jiu-jitsu, a primeira coisa que precisa ter em mente é que o movimento tem a capacidade de cuidar do seu corpo. Os próprios movimentos que você treina no jiu-jitsu, se executados fora do tatame, podem servir como uma forma de prevenção para possíveis lesões, desde que você tenha a disciplina de fazê-los no momento e da forma certos.
Um ótimo exemplo é fazer um bom aquecimento antes mesmo do aquecimento da aula: aquecer os joelhos, o quadril, os punhos, os dedos e os cotovelos. Pense em quais ferramentas você pode usar para ajudar nesse aquecimento, como um elástico ou um peso e, se não houver esses materiais disponíveis no seu local de treino, leve-os na sua bolsa.
No caso de lesões mais extensas ou que ainda não tiveram um diagnóstico, como uma dor na lombar ou uma dor no ombro, que já existia antes mesmo de você começar a praticar jiu-jitsu, pense em fazer um trabalho de mobilidade.
Exemplo prático
Como, por exemplo, pegar uma faixa, enrolar essa faixa e passá-la por trás das costas de uma mão para a outra. Esse movimento trabalha a mobilidade dos dois ombros e da coluna ao mesmo tempo, e é bastante usado antes de treinos como o funcional ou a musculação.
Para aquecer o quadril e o joelho, exercícios de mobilidade deitados no chão são muito comuns. Já o avanço, o agachamento a fundo e as posições de prancha ativam tanto o abdômen quanto o quadril e ajudam muito no aquecimento e na preparação do corpo para o treino.

Falando em mobilidade de quadril, ficar sentado no chão com as duas mãos atrás da cabeça e tentar passar para a posição ajoelhada é uma ótima opção. Essa é uma posição que vai fazer você pensar sobre o que pode ser feito para sair dela.
Como você vai sair dessa posição sentada para se colocar na posição ajoelhada?
É aquele mesmo exemplo que citamos anteriormente, das pessoas que parecem uma tartaruga deitadas de barriga para cima. O que elas podem fazer para sair dessa posição? Isso é criar situações em que você para e olha para o seu próprio corpo, se percebe e se coordena, antes de começar a lidar com o corpo de outra pessoa em um combate.
Por último, vem a dica mais falada de todas, principalmente entre os professores mais graduados e alunos mais experientes: a principal prevenção é deixar o ego de lado. Quando você deixa o seu ego, as suas frustrações e as suas emoções fora do combate, você está respeitando não somente o colega de treino e o corpo dele, como também o seu próprio corpo.
É normal, quando começamos a lutar, querer extravasar e colocar para fora toda a tensão acumulada durante o dia. Mas precisamos lembrar que do outro lado está um colega de treino, com o qual vamos treinar novamente amanhã e depois de amanhã. Ninguém quer sair de lá machucado, e se você resolver colocar para fora todo o seu estresse na luta, pode usar mais força do que deveria, se machucando ou machucando seu colega.
Conclusão
Uma das maiores dúvidas que as pessoas têm em relação ao jiu-jitsu é se ele machuca e qual a probabilidade de se machucar durante os treinos.
Nesse texto nós mostramos que, por ser voltada ao combate e por ser uma luta com muito contato físico, a prática do jiu-jitsu envolve um grande risco de lesões. Mas mostramos também que existem maneiras de prevenir essas lesões ou de evitar que elas se agravem.
É possível cuidar do seu corpo e da sua mente praticando a luta que você gosta de uma forma segura e, para tanto, você pode contar com a Fisioterapia Esportiva como sua grande aliada.
Quer saber mais sobre nosso tratamento e prevenção de lesões no jiu-jitsu? Clique aqui e converse com nossa equipe.
Cristyan Shimamoto
CREFITO-3: 293897-F
Fisioterapeuta graduado pela Universidade de São Paulo (USP) e especializado em Esporte e Exercício pelo HCFMUSP.

