O ombro é uma articulação complexa, que precisa de um encaixe perfeito para funcionar bem.
No CrossFit, onde os movimentos exigem força, velocidade e grandes amplitudes, ele é colocado à prova constantemente. Quando ocorre um desalinhamento das estruturas que o compõem, as chances de desenvolver uma lesão aumentam muito.
Nesse texto, você vai entender como uma lesão no ombro ocorre, quais são as lesões mais frequentes no ombro na prática do CrossFit e quais são os sintomas.
Leia até o fim para identificar os sinais de alerta e adotar os cuidados que ajudam a prevenir as lesões no ombro.
Entenda como ocorrem as lesões no ombro
Para compreender melhor como acontecem as lesões no ombro no CrossFit, podemos recorrer a uma analogia simples: o encaixe entre um soquete e uma lâmpada.

Nesse paralelo, o ritmo escápulo-umeral é como um encaixe perfeito entre essas duas peças. A escápula é como um soquete, e uma de suas partes, a glenóide, corresponde à rosca. Já o úmero, o osso do braço, é a lâmpada que vai se ajustar ao soquete, formando esse encaixe.
Se você tentar encaixar a lâmpada em uma posição perpendicular em relação ao soquete, certamente não vai ter êxito. É preciso que ela esteja alinhada ao soquete. O mesmo vale para a escápula e o úmero: se ambos não estiverem alinhados, apontando um para o outro, não teremos um encaixe perfeito.
Também não é recomendado colocar e tirar essa lâmpada repetidamente. Se isso acontece muitas vezes, a rosca vai se desgastando até que a lâmpada deixe de ajustar corretamente. Devemos encaixá-la bem, mantendo-a firme para que ela cumpra a sua função, que é iluminar o ambiente.
O mesmo princípio vale para a relação entre o braço e o ombro, ou entre o úmero e a escápula. Primeiro é preciso garantir um encaixe estável e seguro, para só então realizar o movimento dentro da amplitude desejada.
É nesse ponto que entra um novo componente: o manguito rotador, responsável por garantir a estabilidade desse encaixe.
Composto por quatro músculos, que são o supraespinal, infraespinal, subescapular e redondo maior, o manguito rotador começa na escápula e vai até o úmero, onde se insere. Estes músculos atuam em conjunto para permitir os movimentos do ombro e, ao mesmo tempo, garantir a estabilidade da articulação glenoumeral.
Voltando à nossa analogia, o manguito rotador funciona como a rosca que assegura o encaixe entre a lâmpada e o soquete. A diferença é que, enquanto na lâmpada esse contato se dá pela parte interna, no ombro o manguito garante a estabilidade da articulação úmero-glenoidal pelo lado de fora.
Esses quatro músculos envolvem quase toda a articulação glenoumeral, fixando o úmero à escápula. Graças a essa sustentação, o úmero é capaz de cumprir seu papel, assim como a lâmpada se mantém acesa graças ao encaixe na rosca interna.
Para fortalecer essa musculatura, permitindo que ela trabalhe de forma mais eficiente, exercícios como os da série Blackburn são bastante efetivos.
A seguir, vamos falar sobre as principais lesões no ombro associadas à prática do CrossFit. E se quiser saber sobre tratamentos, clique aqui e baixe o e-book gratuito: “Do no ombro no Crossfit- Saiba por que é tão comum, como evitar e como tratar.”
As lesões de ombro mais frequentes e associadas à prática do CrossFit são:
Luxação do ombro
Imagine que a rosca que promove o encaixe entre o soquete e a lâmpada se desgasta. Eles perdem o contato e a lâmpada não consegue mais se manter firme em sua posição. O mesmo pode acontecer com o ombro: o úmero e a escápula perdem o encaixe, acontecendo o que chamamos de luxação do ombro.
E por que essa “rosca” deixa de funcionar bem?
Um dos motivos é o fato de a cápsula articular que envolve o úmero e a glenóide, um tecido passivo, que não é um músculo, ser muito frouxa.
Outro fator possível é a própria superfície da glenóide, que é pequena ou pode estar quebrada. Assim, ela fica rasa, sem o formato ou tamanho ideal para manter a “lâmpada” bem encaixada.
Esse processo é o que chamamos de perda de estabilidade passiva, sendo muito frequente em:
- mulheres que apresentam frouxidão ligamentar;
- pessoas que já tiveram um trauma na região do ombro, provocando uma lesão na cápsula articular e a perda da “rosca do soquete”.
Para tratar a luxação deve-se focar, principalmente, no fortalecimento da musculatura do ombro e região, e do manguito rotador em especial, para que ele volte a manter a estabilidade do encaixe úmero-escápula.
Esse trabalho de fortalecimento não se refere a treinar com muito peso e sim aumentar a resistência, já que se trata de um músculo de ativação tônica, ou seja, que contrai pouco, mas durante muito tempo.
Nos casos mais severos, é necessário buscar a avaliação de um ortopedista, podendo ser indicada até mesmo uma intervenção cirúrgica.
Contratura muscular
A contratura muscular é uma das causas mais frequentes de dor no ombro.
Mas por que ela acontece?
Você já viu que o manguito rotador é composto por quatro músculos, e também é o principal responsável por manter o úmero e a escápula alinhados e bem encaixados entre si.
Quando esse encaixe não é perfeito, apenas um dos lados é forçado, causando a sobrecarga de apenas uma parte dessa musculatura. O músculo afetado, que está sobrecarregado e trabalhando mais que os outros, contrai e tem dificuldade de relaxar, causando a contratura muscular e a formação de pontos gatilho (trigger points).
O ombro fica dolorido e inflamado, sendo necessária a ajuda profissional de um fisioterapeuta, que aplica técnicas como a liberação miofascial para ajudar na sua recuperação.
Síndrome do impacto (Tendinite do manguito rotador)
A Síndrome do impacto é uma das lesões mais comuns no ombro, e pode se referir tanto à tendinite do manguito rotador quanto à bursite subacromial e subdeltoidea.
É uma condição que decorre do desgaste dos tendões do supra e do infraespinhal, que fazem parte do manguito rotador. Esse desgaste é provocado pelo contato desses tendões com o acrômio, uma proeminência óssea da escápula que fica localizada na parte de cima do ombro.
Podemos comparar o acrômio com um dente, que mastiga e desgasta o tendão sempre que o braço se movimenta além da amplitude permitida pela glenóide, principalmente quando esse movimento ultrapassa a linha da altura dos ombros.
É como uma lâmpada se movimentando além da amplitude suportada pelo soquete, desgastando as estruturas que estão próximas. Essa movimentação exige um ajuste maior por parte do soquete, tornando-se muito mais prejudicial às estruturas que estão ao redor.
Esta é uma lesão frequente no CrossFit justamente porque, nessa modalidade, são executados muitos movimentos acima da linha dos ombros, como os exercícios na barra (ginásticos) e o LPO (Levantamento de Peso Olímpico).
Lesão de labrum
Você já sabe que a glenóide tem um papel importante no encaixe entre o úmero e a escápula, desempenhando a mesma função do soquete em relação à lâmpada. No entanto, apenas uma pequena parte do úmero, cerca de 30% dele, entra em contato com a glenóide.
Isso ocorre porque a glenóide é muito menor se comparada ao úmero e, por essa razão, não consegue envolvê-lo totalmente. Para compensar essa limitação e ampliar a superfície de contato da articulação úmero-glenoidal, existe um anel fibrocartilaginoso chamado lábio da glenóide, ou simplesmente labrum.
Imagine que a lâmpada desencaixa do soquete, causando lesões no anel fibroso que está na borda do soquete. São as chamadas lesões de SLAP e de Bankart, ou lesões de labrum.
São muito comuns em casos de:
- luxação do ombro;
- quedas em que o ombro sai do lugar de forma brusca;
- movimentos repetitivos e de grande amplitude acima da linha da cabeça, como no caso dos jogadores de vôlei, por exemplo.
Continue lendo para conhecer os sintomas mais frequentes de uma lesão no ombro.
Quais são os principais sintomas das lesões no ombro

Além da própria dor no ombro, um dos sintomas mais frequentes de lesão nesta articulação é a dor miofascial, uma dor que é percebida em uma parte do corpo que, a princípio, não tem nenhuma ligação com a região que foi lesionada.
A dor miofascial pode se manifestar:
- na região localizada entre as costas e o ombro;
- na região do pescoço;
- desde o ombro até a lateral do braço;
Esse é o meio que o nosso corpo utiliza para proteger a região lesionada, neste caso, o ombro: os músculos se contraem na tentativa de mantê-lo firme em seu lugar, causando tensão nas regiões mais próximas.
Quando contraímos os ombros para cima, em direção às orelhas, sentimos tensão nos músculos do pescoço. Quando essa contração é da frente para trás, sentimos tensão nas costas, mais especificamente nos músculos rombóides, localizados na altura da coluna torácica.
Outros locais onde essa dor pode ser comum são:
- na região mais baixa do tórax, bem próximo à região lombar. Nesse caso, ela atravessa os músculos grande dorsal e trapézio inferior;
- na lateral do braço, próximo ao cotovelo, na altura do músculo deltóide. Nesse caso, a dor vai além da distância do músculo, irradiando através da fáscia.
A sensação de formigamento nas mãos também é um sintoma frequente, já que alguns nervos que têm origem na coluna torácica passam muito próximos ao ombro, mais especificamente entre os seus músculos. O músculo sofre contratura e prende o nervo, causando a sensação de dormência nas mãos.
Outro tipo de dor muito frequente em casos de lesão no ombro é a dor acromioclavicular, que ocorre principalmente nas pessoas que dormem de lado, com os ombros fechados, comprimindo a clavícula e as escápulas. Como resultado, elas sentem uma dor intensa ao acordar.
Conclusão
O ombro é, sem dúvida, uma das articulações mais exigidas no CrossFit. E justamente por isso, também é uma das mais vulneráveis. Luxações, contraturas, síndrome do impacto e lesões de labrum estão entre os problemas mais frequentes, quase sempre ligados à falta de estabilidade, sobrecarga ou execução inadequada dos movimentos.
Compreender como essa articulação funciona, fortalecer a musculatura de suporte especialmente o manguito rotador e respeitar os limites do corpo reduzem significativamente os riscos de lesões.
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