Olá, eu sou o Cristyan, fisioterapeuta da Wolf Fisioterapia, localizada no Brooklin, zona sul de São Paulo, e especializado em Fisioterapia Esportiva.
Há quatro anos mergulhei no universo do CrossFit, não apenas como profissional, mas também como praticante. Essa vivência me permitiu desenvolver uma abordagem única na clínica: entender a rotina real dos atletas para desenvolver um tratamento realmente eficaz.
Na Wolf, nosso foco como fisioterapia esportiva vai além de apenas resolver a dor. Buscamos corrigir movimentos, prevenir a recorrência de lesões e garantir que você retorne mais forte ao seu esporte.
E isso não se aplica somente ao CrossFit, mas a todas as modalidades.
Nesta matéria, vamos nos aprofundar em um desafio comum entre os crossfiteiros: a dor no ombro. Seja pelo clean&jerk, snatch ou o bar muscle-up, essa articulação sofre, e muito, nessa modalidade. E é preciso saber como protegê-la e tratá-la da maneira certa.
Vou compartilhar um método comprovado, que aplicamos na clínica para ajudar atletas como você a superar a dor, melhorar a mobilidade e voltar aos treinos com segurança e confiança.
Vem comigo!
Por que a dor no ombro é tão comum no CrossFit?
O CrossFit é uma modalidade de treinamento funcional criada pelo americano Greg Glassman, tornando-se uma marca registrada no ano 2000. Ele combina diversos movimentos funcionais, incorporando influências do levantamento de peso olímpico, da calistenia, do treinamento de ginástica olímpica e do powerlifting, entre outras modalidades.

No contexto da fisioterapia esportiva, quando se trata do ombro, o CrossFit pode ser analisado sob dois movimentos principais: os movimentos de puxar e de empurrar. Como esses exercícios exigem muito do corpo como um todo, consequentemente, também impõem grande demanda sobre os ombros.

Sabe-se que o ombro ocupa o primeiro lugar em lesões mais prevalentes no CrossFit, seguido pela dor lombar em segundo lugar e pela dor no joelho em terceiro.
Alguns estudos indicam que, a cada 1000 horas de treinamento, aproximadamente 30% dos praticantes desenvolvem dor no ombro, 27% apresentam dor lombar e cerca de 18% relatam dores no joelho.

Dentre os exercícios mais exigentes para o ombro no CrossFit, destacam-se:
- Ring muscle-up (subida na argola);
- Bar muscle-up (subida na barra);
- Snatch (movimento que costuma ser difícil para quem já tem dor no ombro);
- Handstand walk (flexão de ponta cabeça na parede);
- Rope climb (escalada na corda).

Esses são, em geral, os movimentos que mais trazem desconforto e dor no ombro na prática do CrossFit.
Mas por que isso acontece?
Porque além de exigirem uma grande amplitude de movimento – muitos desses exercícios colocam o ombro em posição completamente estendida acima da cabeça – eles também são feitos com uma carga significativa.
Por exemplo, em um handstand walk, o peso corporal inteiro do atleta (70, 80 ou até 90 kg) é sustentado pelos ombros. Da mesma forma, em movimentos como o bar muscle-up ou ring muscle-up, o corpo fica suspenso pelas mãos, transferindo todo o peso através dos ombros, além de sofrer acelerações devido aos balanços sob a barra.
Essa combinação de amplitude, carga e dinâmica de movimento explica por que essas atividades são tão desafiadoras e, muitas vezes, associadas a lesões.

Como inicia o tratamento da dor no ombro no âmbito da Fisioterapia Esportiva
Um paciente chega na clínica dizendo que está com dor no ombro. Quais são os primeiros passos a tomar?
Nosso primeiro passo, e um dos mais importantes no tratamento da Wolf, começa com o planejamento terapêutico, e é isso que fazemos logo na primeira vez que o paciente vem até a clínica.
Iniciamos esta matéria contextualizando toda a prática do CrossFit – e a dor no ombro dentro dessa modalidade – para mostrar o quanto buscamos nos aproximar da realidade esportiva: desde o momento de entender e avaliar o paciente e a sua dor, até – e principalmente – a hora em que ele conclui o tratamento e retorna definitivamente ao seu esporte.

Não adianta pensarmos somente em deixar o ombro forte e alongado se ele ainda não está preparado para suportar as exigências complexas do CrossFit.
Quando um paciente chega à clínica com dor no ombro, essa dor pode estar associada tanto ao levantamento de peso olímpico (LPO), que é o arranque, quanto pode ser uma dor associada à musculação, a movimentos como o supino, o desenvolvimento ou o desenvolvimento Arnold.
É uma dor que também pode se manifestar em outras situações: pacientes costumam relatar desconforto ao se vestir, ao levantar o braço, ao coçar a cabeça e, principalmente, ao dormir. Ele está se sentindo bastante desconfortável, a ponto de não conseguir mais conviver com essa dor.

Esse é o momento em que o paciente chega com uma dor aguda, que não necessariamente é causada por um trauma. Na maioria das vezes, a dor surge devido a movimentos repetitivos.
Relato real
Outra situação muito comum é quando o paciente tenta aumentar a carga de treino: “Eu sempre levantei entre 20 para fazer supino ou levantamento de peso, resolvi aumentar para 30 kg e doeu.”

Também é bastante frequente o relato de dor no ombro após a participação em campeonatos de CrossFit, quando o nível de exigência do corpo é elevado de forma muito intensa.
Normalmente esse paciente chega na clínica depois de ir ao ortopedista que, depois da avaliação, pediu uma ressonância magnética.
É muito comum recebermos pacientes com a ressonância em mãos, e os principais apontamentos do exame são:
- tendinopatia do supra espinhal;
- tendinopatia do infraespinhal;
- inflamação da bursa subdeltoidea ou subacromial.
Todas essas condições juntas formam a Síndrome do Impacto ou Síndrome de colisão do ombro. São citadas no CID M75.4, que faz parte da Classificação Internacional de Doenças e está dentro de um grupo de doenças dos ombros, mais especificamente à lesões nos tecidos moles do ombro, como músculos, tendões e ligamentos.
O que isso significa na prática?
O espaço subacromial é uma região muito delicada do ombro. É uma proeminência óssea localizada logo abaixo do acrômio e que funciona como uma espécie de “tampa” dessa articulação. Abaixo do acrômio encontra-se o osso do braço, o úmero. Dentro dessa cavidade, estão presentes dois tendões importantes: o tendão do supraespinhal e o tendão do infraespinhal. Além disso, há também uma estrutura chamada bursa, uma bolsa fina de líquido que atua como amortecedor, conhecida como bursa subdeltoidea ou subacromial.

A inflamação dessas três estruturas (o tendão do supraespinhal, o tendão do infraespinhal e a bursa) ocorre devido ao atrito entre os dois ossos: o úmero e o acrômio. Esse “mastigamento” acontece quando esses ossos se encontram, comprimindo as estruturas que ficam entre eles.

Na ortopedia, o tratamento tradicional consiste em controlar a inflamação e evitar movimentos com o braço acima da cabeça. Essa costuma ser a primeira orientação dada aos pacientes quando eles procuram um pronto-socorro ortopédico.
Recomendações médicas
Nessas situações, é comum o médico recomendar a interrupção dos treinos. E, de fato, o paciente precisa parar temporariamente, pois está com uma lesão e um quadro inflamatório ativo. Para que a inflamação ceda, é necessário dar um tempo e evitar, principalmente, os movimentos acima da cabeça.
No entanto, isso não significa que ele precisará parar de treinar para sempre. O mais importante é realizar o tratamento adequado para, então, conseguir retomar os treinos com segurança e eficiência.
Portanto, o processo não pode se resumir ao tratamento do quadro inflamatório, especialmente quando a pessoa deseja retornar ao box (academia de treino).
Muitos dos pacientes que chegam à nossa clínica não querem interromper os treinos. Nesse caso, o que fazemos, dentro da nossa prática de Fisioterapia Esportiva, é uma avaliação detalhada do movimento dentro do esporte que o paciente pratica que, neste caso, é o CrossFit.
Veja com mais detalhes a seguir.
Como identificamos o que causa a dor no ombro na prática do CrossFit
No CrossFit, ou no LPO mais especificamente, podemos analisar tanto o levantamento (clean & jerk) quanto o arranque (Snatch). Em uma dessas avaliações, observamos um paciente durante o snatch e percebemos que ele apresentava um padrão de movimento fora do normal, com uma exigência excessiva sobre os ombros.

Durante a puxada, ao levantar a barra do chão até a altura do peito, ele fechava os ombros. Como consequência, no momento de empurrar a barra para cima dos ombros, eles estavam protraídos e a sua postura estava retificada, o que compromete a execução e aumenta o risco de lesões.

A partir dessa observação, passamos a questionar não apenas o ombro em si, mas também a origem da desorganização no movimento dos ombros. Começamos a investigar de onde vem essa falta de coordenação.
Partimos do princípio de que, se posicionamos as escápulas em direção ao chão, conseguimos realizar movimentos abaixo da linha do ombro. No entanto, ao posicionar as escápulas mais elevadas (acima da linha dos ombros) ganhamos maior mobilidade para executar movimentos com o braço acima da cabeça.
E isso é especialmente relevante, já que a maioria dos movimentos no CrossFit exige justamente essa elevação dos braços.
No caso específico do paciente avaliado, foi observada uma protrusão acentuada dos ombros. Durante a transição entre puxar a barra e empurrá-la para cima, ele ainda mantinha as escápulas e a postura orientadas para baixo, ou seja, empurrando os ombros em direção ao chão.
Essa incoerência no posicionamento gerava um desalinhamento no movimento, resultando em sobrecarga e estresse sobre a articulação do ombro. Como consequência, o paciente desenvolveu a síndrome do impacto.
Resumindo: o paciente sofreu uma lesão no ombro porque realizava o movimento de forma desequilibrada. E vale lembrar que não se trata apenas de um movimento do ombro. O que aconteceu foi que, ao executar esse movimento sem a postura adequada, ele acabou sobrecarregando a articulação do ombro.
E como nós identificamos que a postura não estava correta?
Na Fisioterapia Esportiva, quando realizamos uma avaliação do movimento, o objetivo é compreender como o corpo inteiro está organizado para executar determinada ação. Como, por exemplo, levantar uma barra do chão.
Durante essa análise, observamos o posicionamento das escápulas. Se as escápulas estão orientadas para baixo, significa que elas ainda estão posicionadas para fazer o trabalho de baixa amplitude. No entanto, se o movimento exige empurrar as mãos acima da cabeça, é fundamental que as escápulas estejam posicionadas para cima, acompanhando e facilitando a elevação dos braços.

É isso que ocorre no chamado ritmo escápulo-umeral. Até os 90° de elevação do braço, as escápulas permanecem apontadas para a lateral do corpo. A partir desse ponto, elas iniciam um ajuste, contribuindo ativamente para a continuação do movimento.
Agora as escápulas possuem cerca de 45° de mobilidade disponíveis, ou seja, a cada 2° de elevação do braço do nível dos ombros até acima da cabeça, corresponde a aproximadamente 1° de movimento da escápula. Se esse ajuste escápulo-umeral não estiver acontecendo corretamente no momento da recepção da barra acima da cabeça, é muito provável que esteja provocando um estresse excessivo na articulação do ombro.
Neste caso foi observado somente o ritmo escápulo-umeral?
Não. Além da análise do ritmo escápulo-umeral, avaliamos o posicionamento completo do paciente em relação ao peso da barra, a fim de identificar outras alterações posturais importantes. Por exemplo, se ele pesa 75 kg e quer levantar 70 kg do chão, não é apenas dobrando os cotovelos que ele vai conseguir executar o movimento corretamente.
É essencial utilizar a força de impulso das pernas. Essa força precisa ser transmitida de forma eficiente através do quadril, do core, passando pelo tórax até a cintura escapular. Só assim é possível gerar a potência necessária para retirar o peso do chão, impulsioná-lo e empurrá-lo com controle até acima da cabeça.

Esse é um movimento extremamente rápido e linear, que exige coordenação, força e alinhamento postural em toda a cadeia corporal.
Quando conseguimos ajustar toda essa sequência de eventos, como o movimento das pernas, do tronco e dos ombros, alcança-se um nível de eficiência muito maior. Com uma boa qualidade no movimento, um bom alinhamento entre os segmentos do corpo, ou seja, uma postura adequada durante toda a execução, alinhados a uma boa velocidade tanto na saída quanto na recepção do movimento, torna-se possível receber a barra acima da cabeça com mais facilidade e controle.

Investigar a causar é a solução
Tudo o que afasta o paciente dessa linha de organização compromete a sua postura durante o levantamento. Por isso, é fundamental investigar o que está causando esse desvio, tanto na fase de puxar quanto na fase de empurrar, especialmente no momento da recepção da barra acima da cabeça.
Entender essas falhas no alinhamento permite corrigir o movimento, reduzir o risco de lesões e melhorar a eficiência na prática do esporte.
Ou seja, durante a avaliação, não se analisa apenas a lesão no ombro. Claro, é importante identificar o que está machucado, mas também é essencial entender por que aquela estrutura está sendo sobrecarregada, porque ela está sendo “mastigada”.
Na nossa avaliação, observamos como o paciente está utilizando todo o ombro no movimento, identificando padrões incorretos ao levantar o braço. Além disso, se a postura não estiver adequada, ele não conseguirá elevar os braços com carga acima da cabeça de forma eficiente e segura, usando todo o seu corpo para que ele fique reto.
É desta forma que identificamos a causa da sobrecarga no ombro, pois tratando a causa do problema, é possível evitar a reincidência da lesão.
Como é o tratamento da Wolf Fisioterapia para a dor no ombro no CrossFit
O tratamento vai se dividir em 3 etapas:
1ª etapa – Fase aguda – Tratamento da dor e inflamação
A fase aguda da dor no ombro é especialmente desafiadora. Nessa etapa, a pessoa geralmente encontra-se bastante limitada: muitas vezes não consegue tomar banho direito, lavar a cabeça, levantar o próprio braço e, em casos mais graves, nem mesmo se vestir sem ajuda.
É comum que o paciente chegue à clínica em estado de desespero, buscando alívio imediato. Para quem está passando por isso, a nossa primeira palavra é: calma.
O tratamento da fase aguda começa, prioritariamente, com o controle da inflamação. Assim como em um pronto-socorro ortopédico, o foco é controlar a dor e inflamação, onde são administrados medicamentos com o objetivo de controlar os principais sinais inflamatórios.
Caso você não saiba, os quatro sinais clássicos da inflamação são:
- dor – gerando a limitação do movimento;
- edema (inchaço);
- aumento da temperatura no local da lesão;
- vermelhidão.
Esses são os chamados sinais cardinais da inflamação.
No contexto da Fisioterapia Esportiva, o controle da inflamação na fase aguda pode ser feito com diversos recursos, tais como:
- compressas de gelo, para reduzir o edema e, principalmente, aliviar a dor;
- laser, que estimula as células responsáveis pela cicatrização, contribuindo para o controle da inflamação e da dor;
- ultrassom, utilizado como ferramenta complementar no controle do processo inflamatório;
- TENS (Estimulação Elétrica Nervosa Transcutânea), voltado para o alívio da dor.
No entanto, o recurso que mais utilizamos na Wolf Fisioterapia é a liberação miofascial. Esse método promove a liberação de músculos que se encontram contraídos, como uma forma de proteção contra o movimento que gera dor no ombro.
Nessas situações, os músculos acabam entrando em contratura para restringir a movimentação da articulação. Com a liberação miofascial, conseguimos reorganizar essas estruturas musculares, permitindo que retornem ao seu estado funcional normal.

Uma das perguntas mais frequentes que recebemos na clínica é: “Em quanto tempo vou conseguir lavar o cabelo?”
De forma geral, se o paciente foi bem atendido e recebeu um cuidado adequado durante a fase aguda, o controle da dor costuma acontecer entre 1 e 3 semanas. Esse tempo pode variar de acordo com dois fatores principais:
1) o tempo de exposição ao mecanismo lesivo – ou seja, há quanto tempo o ombro está sobrecarregado ou lesionado;
2) a extensão da lesão – ombros mais enfraquecidos, com menor massa muscular e pouca capacidade de adaptação e organização do movimento escápulo-umeral, tendem a apresentar lesões mais graves e disfunções mais acentuadas. Nesses casos, o processo de recuperação pode se estender por até mais tempo.
Outra dúvida frequente é sobre quantas sessões são necessárias nessa fase e se pode fazer fisioterapia todos os dias.
O ciclo da fase inflamatória começa e termina dentro desse período de tempo que citamos (1 a 3 semanas). Fazer mais sessões durante essa fase pode, sim, ajudar bastante no controle dos sintomas e na liberação das contraturas musculares. No entanto, isso não significa que a inflamação do tecido será resolvida mais rapidamente apenas com maior frequência de atendimentos.
De modo geral, realizar 2 a 3 sessões por semana costuma ser suficiente para ajudar no controle da inflamação, proporcionar alívio da dor e preparar o corpo para as fases seguintes do tratamento.
Pode treinar durante a fase aguda?
Uma pergunta muito frequente nessa fase é: “Posso treinar? Ou estou completamente impedido de treinar?”
Para a maioria dos casos de ombro com dor intensa, a recomendação é, sim, interromper temporariamente os treinos. Isso não significa abandonar a prática esportiva para sempre, mas sim dar ao corpo o tempo e a energia necessários para se recuperar adequadamente.
Essa pausa é fundamental para permitir que os tecidos lesionados passem pelo processo de regeneração, sem serem constantemente sobrecarregados por movimentos que agravam o quadro. Respeitar esse tempo de recuperação é essencial para voltar a treinar com segurança e performance.

Mas mesmo durante essa fase de dor intensa, existem movimentos que podem ser realizados com segurança, especialmente aqueles que permanecem abaixo da linha do ombro, para evitar o estresse sobre o espaço subacromial.
Dica de movimentos e exercícios
Um bom exemplo são os movimentos de amplitude controlada, utilizando um bastão. Nesse caso, o movimento do braço não é feito de forma ativa, mas sim passiva, usando o bastão para auxiliar no deslocamento do ombro, sem gerar sobrecarga.
Além disso, alguns exercícios de força também podem ser incluídos, desde que respeitem esse limite de elevação. Movimentos como rosca direta ou tríceps na polia são boas opções, pois mantém os cotovelos próximos à linha do corpo e não exigem elevação do braço acima da cabeça.

Os exercícios de perna também podem ser feitos, desde que não envolvam posições que exijam abrir demais os ombros ou sobrecarregar a região lesionada.
Por exemplo, deve-se evitar agachamentos com a barra posicionada atrás da cabeça, pois isso exige a abertura dos ombros. Por outro lado, é seguro fazer agachamentos livres ou com pesos posicionados ao lado do corpo, aproximadamente na altura dos joelhos, como em variações com halteres ou kettlebells.

Essas adaptações permitem manter o corpo ativo, mesmo em recuperação, sem comprometer a estrutura lesionada.
Outros exercícios bastante clássicos da fisioterapia, e muito úteis nessa fase, são as isometrias, tanto de rotação interna quanto de rotação externa.
Um exemplo comum é o uso de uma borrachinha (elástico) colocada no dorso das mãos, onde o paciente realiza o movimento de afastar uma mão da outra. Outro exemplo é segurar uma bola à frente do corpo, apertando uma mão contra a outra.
Esses são exercícios de isometria com proteção angular, e podem ser feitos mesmo quando ainda há dor, pois são de baixa intensidade e ajudam a manter a ativação muscular sem agravar a inflamação.

2ª etapa – Fase subaguda – Retorno às atividades do dia a dia
Uma vez que a fase aguda está controlada, o próximo passo é retomar as atividades do dia a dia. Isso inclui ações simples, mas essenciais, como pentear o cabelo, lavar a cabeça, guardar um prato ou copo na prateleira de cima.
São tarefas cotidianas que, com a recuperação em andamento, voltam a ser possíveis. O paciente pode até lembrar que existe um ombro machucado, mas já não tem a mesma limitação funcional de antes, e essas atividades deixam de ser impeditivas.

A chamada fase subaguda costuma durar de 4 a 8 semanas, dependendo da gravidade da lesão. É nesse período que começamos a retomar exercícios mais próximos dos que são feitos na musculação, de fortalecimento resistido.
Exemplo prático excelente
Um exemplo muito usado é a elevação lateral com angulação controlada: o paciente segura dois pesos leves, abre os braços lateralmente e eleva até, aproximadamente, a altura do nariz. Da mesma forma, é possível realizar a elevação frontal, com os pesos sendo elevados à frente do corpo, também até a altura do nariz.

À medida que o paciente evolui, tanto a carga quanto a amplitude de movimento podem ser gradualmente aumentadas, até que se atinja a amplitude completa, sempre respeitando os limites do corpo e evitando dor.
Ou seja, nessa fase, os exercícios passam a ser mais específicos para fortalecimento e mobilização do ombro. Como ainda não é o momento ideal para expor totalmente o paciente à prática do CrossFit, pois há um alto risco de se lesionar novamente, optamos por introduzir movimentos controlados e adaptados.
Por exemplo, é possível incluir exercícios como o clean (tirar a barra do chão e colocar em cima dos ombros), o kettlebell swing russo (movimento até uma meia altura), a remada na argola, entre outros. Essas opções permitem que o paciente participe do treino, mantendo-se ativo e integrado à rotina do CrossFit, mas sem exigir movimentos de elevação acima da cabeça, que ainda podem representar risco nessa etapa da reabilitação.
Nessa fase o paciente começa a voltar aos treinos de uma forma orientada.

3ª etapa – Fase de retorno ao esporte
E então chegamos à terceira fase do processo, que é a fase de retorno ao esporte, a principal e mais importante. É nesse momento que vamos entender, de forma mais profunda, o que levou o paciente a desenvolver a dor aguda no ombro.
Vamos avaliar tanto os movimentos de levantamento de carga, quanto outros movimentos que podem estar relacionados à sobrecarga, como, por exemplo, os movimentos de ficar de ponta-cabeça (Hand Stand), muito comuns no CrossFit, que exigem 100% de ajuste das escápulas e amplitude total de movimento dos ombros.
É nessa etapa que investigamos o porquê da postura de ombros fechados e coluna dobrada e como ela está influenciando no movimento dos ombros.
Essa é a fase principal do trabalho de reeducação postural do paciente, com o objetivo de melhorar o alinhamento do seu tronco.
Não se trata apenas de dar comandos como “abre o peito” ou “encolhe a barriga”. Esse tipo de orientação é artificial e ele dificilmente conseguirá sustentar, principalmente quando estiver cansado durante o treino.
Por isso, buscamos estratégias mais eficazes, que envolvem consciência corporal verdadeira e a automatização de padrões posturais que possam ser mantidos naturalmente, mesmo sob esforço físico.
Então o que precisamos fazer nessa etapa?
Impor exigências gradativas, cuidadosamente planejadas, para que o paciente consiga compreender e integrar o que é um alinhamento adequado da coluna e dos ombros, especialmente para realizar levantamentos de peso acima da cabeça.
Esse é o trabalho de reeducação funcional da postura aprofundado: quando recondicionamos o corpo para adotar uma nova organização postural, mais eficiente e segura. O objetivo é tornar o paciente apto novamente a levantar o braço acima da cabeça, com carga, velocidade e controle, sem comprometer a estrutura do ombro.
Ou seja, nessa última etapa, a atenção não está mais voltada apenas para o ombro, porque o paciente já não sente dor, já voltou ao box, já realiza suas atividades do dia a dia e, na maior parte, está funcionalmente bem.
Mas quando se trata de voltar ao esporte que ele ama, como o CrossFit, que exige muito mais do corpo, é preciso que alguém mostre a ele o “caminho das pedras”, fazendo uma progressão segura e estruturada.
É fundamental que o retorno ao esporte seja acompanhado e orientado, para que o paciente não apenas esteja sem dor, mas também esteja confiante e preparado para a carga real do esporte.
O que nós fizemos para melhorar a postura do paciente que levantava a barra com os ombros fechados durante a 3ª etapa
Uma coisa que influenciava muito a postura de ombros fechados desse paciente era a sua respiração, que acontecia principalmente na barriga, abaixo da linha do umbigo. Ele também fazia muitos movimentos com o core, que deveria estar mais firme e consistente. Essa instabilidade não permitia que o tórax respirasse adequadamente, nem que servisse como uma boa base para a postura.
Nesse início de retorno ao esporte, nosso trabalho principal foi manter a postura, mesmo em momentos de respiração mais ofegante, garantindo que ele conseguisse sustentar um bom alinhamento postural mesmo quando estivesse cansado. Às vezes, logo após uma corrida, ele já fazia um movimento muito grande com os ombros, fechando-os, e isso, durante o levantamento de peso, gerava um mau arranjo das escápulas, resultando em sobrecarga nos ombros.
Por isso, a primeira fase do retorno ao esporte foi focada em melhorar o condicionamento físico associado à melhora da postura.
E como nós fizemos isso?

Durante a sessão, nós propositalmente o levamos ao cansaço com levantamento de peso e movimentos repetitivos, para que ele conseguisse perceber o erro postural que cometia quando estava ofegante. Por exemplo, colocamos ele para pular no step, ainda na sessão da fisioterapia, até começar a suar e respirar mais forte.
Em seguida, introduzimos um exercício como a elevação lateral com peso. Com a respiração mais ofegante, ele começava a perder o alinhamento da coluna. Nesse momento entramos com as orientações, para que ele aprendesse a executar o movimento de forma diferente, mesmo sob fadiga.

Basicamente, o que nós fizemos foi ensiná-lo a respirar no lugar e da maneira corretos. Com uma contração adequada do core, ele conseguia manter a postura mesmo cansado e levantar os pesos necessários sem que essa postura desmoronasse.
Percebe como resolvemos um problema no ombro ensinando o nosso paciente a respirar corretamente?
Isso é reeducação postural. Postura tem tudo a ver com a resistência do corpo frente à gravidade. Para isso, a gente precisa organizar os músculos de dentro, como o diafragma e o abdômen, e como esses músculos pequenos, de longa duração e pequena intensidade, vão se manter ao longo de muito tempo para segurar o corpo em cima do eixo corporal.
Essa última fase pode durar entre 8 a 16 semanas.
Após concluir essa fase, ele retornou à prática do Crossfit fazendo os movimentos de uma forma mais adequada e deixou de sentiu dor.
Por que a terceira etapa é a mais importante?
Essa fase é especialmente importante e precisa receber muita atenção, porque é muito comum que, por causa da dor no ombro, a pessoa desenvolva uma assimetria em toda a postura. O corpo entra em uma postura defensiva em relação ao ombro, e ele pode ficar mais alto ou mais baixo, dependendo da compensação.
Quando a pessoa vai levantar a barra, por exemplo, pode acabar usando ainda mais o ombro machucado, mesmo sem perceber. O medo de movimentar ou estender o braço acima da cabeça pode fazer com ela eleve os ombros e os mantenha “colados” na orelha, como um mecanismo de proteção. E trazer dor no pescoço, trapézios e até na cabeça pelo aumento da tensão muscular compensatória.

Na prática esportiva, os movimentos se tornam ainda mais lesivos quando essas compensações começam a fazer parte do treino. E então vem o clássico: “vou levantar só o peso da barra, só 10 ou 20 kg”. Mas isso já é mais do que suficiente para piorar (e muito) uma compensação postural que nasceu como uma memória de dor.
Além disso, durante o processo de retorno ao esporte, é comum o paciente sentir insegurança em relação aos sinais que o corpo dá.
O processo de alternar entre a prática esportiva e as sessões de fisioterapia permite fazer os ajustes necessários. A cada retorno, é possível avaliar os sintomas, identificar se a dor é esperada ou não, e fazer as orientações necessárias.
Resumo do assunto
Resumindo, acompanhar de perto o processo de retorno ao esporte é fundamental, especialmente porque esse primeiro contato na volta à academia costuma gerar muito medo. Muitas vezes, o paciente não sabe se pode ou não realizar determinado exercício, fica inseguro, evita o movimento ou tenta fazer sem certeza de que está correto, e isso pode acabar gerando dor.
Por isso, o acompanhamento ajuda a identificar o que faz parte do processo de recuperação e o que está fora do esperado. É assim que conseguimos diferenciar uma dor que é natural da retomada dos movimentos do ombro, daquela que sinaliza uma sobrecarga ou execução inadequada, especialmente nesse momento de aumento gradual de carga e velocidade.
Essas idas e vindas entre o treino e o acompanhamento profissional dão ao paciente mais segurança para retornar definitivamente ao esporte.
Dessa forma, conseguimos devolver o paciente ao esporte de maneira mais consistente e segura, evitando aquele ciclo de vai e volta, marcado por tentativas e erros.
Conclusão
O processo de reabilitação da dor no ombro no CrossFit pode ir muito além do próprio ombro. Questões como postura, respiração e a forma como o corpo lida com o esforço e a fadiga podem ter uma relação direta com o surgimento da lesão.
Por isso, na Wolf Fisioterapia, o foco não é apenas tratar o sintoma, mas entender e resolver a causa de forma definitiva.
Nossa proposta é reeducar o paciente, para que ele volte ao esporte com confiança e sem medo. Acreditamos que a verdadeira alta acontece quando o paciente não sente mais dor e, acima de tudo, não precisa mais voltar para resolver o mesmo problema.
Se você está passando por um processo de dor no ombro, ou sente que algo está limitando sua performance, te convidamos a conhecer a Wolf Fisioterapia, no Brooklin, em São Paulo. Agende uma avaliação com a nossa equipe e dê o primeiro passo para uma recuperação definitiva.
Perguntas Frequentes
1) Por que a dor no ombro é tão comum no CrossFit?
No contexto da fisioterapia esportiva, quando se trata do ombro, podemos analisar o CrossFit a partir de dois movimentos principais: puxar e empurrar. Como esses exercícios exigem muito do corpo como um todo, consequentemente, também impõem grande demanda sobre os ombros. Sabe-se que o ombro ocupa o primeiro lugar em lesões mais prevalentes no CrossFit, seguido pela dor lombar em segundo lugar e pela dor no joelho em terceiro.
2) Quais são os exercícios que mais exigem do ombro no CrossFit?
Dentre os exercícios mais exigentes para o ombro no CrossFit, destacam-se o Ring muscle-up (subida na argola), o Bar muscle-up (subida na barra), o Snatch (movimento que costuma ser difícil para quem já tem dor no ombro), o Handstand Pushup (flexão de ponta cabeça na parede) e o Rope climb (escalada na corda).
3) Quais são os principais diagnósticos da dor no ombro no CrossFit?
Os principais diagnósticos da dor no ombro no CrossFit são a tendinopatia do supra espinhal, a tendinopatia do infraespinhal e a inflamação da bursa subdeltoidea ou subacromial. Todas essas condições, juntas, formar a Síndrome do Impacto ou também a Tendinite do Manguito Rotador. O CID M75, que integra a Classificação Internacional de Doenças, descreve um grupo de doenças dos ombros, especificamente lesões nos tecidos moles, como músculos, tendões e ligamentos.
4) O que é a Síndrome do Impacto ou Tendinite do Manguito Rotador?
É a inflamação dessas três estruturas (o tendão do supraespinhal, o tendão do infraespinhal e a bursa Subacromial), que ocorre devido ao atrito entre dois ossos: o úmero (do braço) e o acrômio (do ombro). Quando esses ossos se encontram ocorre um “mastigamento” dessas estruturas, que ficam comprimidas, causando a inflamação.
5) Quais são os principais sintomas da Síndrome do Impacto ou Tendinite do Manguito Rotador?
Os principais sintomas são dor, edema (inchaço), aumento da temperatura no local da lesão e, principalmente, a limitação do movimento. Esses são os chamados sinais cardinais da inflamação.
6) Eu preciso parar de treinar CrossFit por causa da dor no ombro?
É comum o médico recomendar a interrupção dos treinos. E, de fato, você precisa parar temporariamente, pois está com uma lesão e um quadro inflamatório ativo. Para que a inflamação ceda, é necessário dar um tempo e evitar, principalmente, os movimentos acima da cabeça. No entanto, isso não significa que você precisará parar de treinar para sempre. Realizar o tratamento adequado é essencial para retomar os treinos com segurança e eficiência. É nesse contexto que entra a Fisioterapia Esportiva, que vai além do quadro inflamatório e busca identificar as causas reais do problema para levar você de volta ao esporte de forma segura.
7) Como é o tratamento da dor no ombro no CrossFit?
Na Wolf Fisioterapia o tratamento se divide em 3 fases: o tratamento da fase aguda, para alívio da dor e inflamação; o tratamento da fase subaguda, onde o paciente consegue retomar atividades normais do dia a dia como lavar o cabelo, e quando são realizados exercícios de fortalecimento assistido; e a terceira fase, de retorno ao esporte, quando o paciente volta à prática do CrossFit de maneira gradual e sob a nossa orientação.
8) No tratamento da fase aguda, em quanto tempo eu consigo voltar a fazer atividades simples como lavar o cabelo?
De forma geral, se você foi bem atendido e recebeu um cuidado adequado durante a fase aguda, o controle da dor costuma acontecer entre 1 e 3 semanas. Esse tempo pode variar de acordo com dois fatores principais, como o tempo de exposição ao mecanismo lesivo (há quanto tempo o ombro está sobrecarregado ou lesionado) e a extensão da lesão (ombros mais enfraquecidos, com menor massa muscular e pouca capacidade de adaptação e organização do movimento escápulo-umeral, tendem a apresentar lesões mais graves e disfunções mais acentuadas). Nesses casos, o processo de recuperação pode se estender até por mais de três semanas.
9) Quantas sessões de fisioterapia são necessárias no tratamento da fase aguda? Eu posso fazer sessões todos os dias?
O ciclo da fase inflamatória começa e termina dentro de um período de tempo determinado (geralmente entre 1 e 3 semanas). Fazer mais sessões durante essa fase pode, sim, ajudar bastante no controle dos sintomas e na liberação das contraturas musculares. No entanto, a maior frequência de atendimentos não resolve mais rapidamente a inflamação do tecido. De modo geral, realizar 2 a 3 sessões por semana costuma ser suficiente para ajudar no controle da inflamação, proporcionar alívio da dor e preparar o corpo para as fases seguintes do tratamento.
10) Quanto tempo dura o tratamento completo da dor no ombro no CrossFit?
Considerando que o tratamento da fase aguda pode levar de 1 a 3 semanas, o tratamento da fase subaguda pode levar de 4 a 8 semanas e a fase de retorno ao esporte pode levar de 8 a 16 semanas, o tempo total de tratamento da dor no ombro no CrossFit pode levar de 3 a 6 meses.





